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May PEACE Prevail in Sierra Leone!
May PEACE Prevail on Earth!

 

Picture of the working group in Brazil: (Heloisa Sampaio is the woman in white).

Research on Conflict Areas Around the World.

I study History in a university in Brazil and I am in a group that research conflict areas all around the world. We choose Sierra Leone as a principal area of our research, with the intention of understand and identify the conflict that has been happening for the last 10 years.

However we are having difficulty to find enough materials about it. So we went to the internet as a way to get in touch with people who lives in that country to find out the real situation there. We are asking for your help, answering according with your knowledge and experience the following questions.

If you have other information that you consider valuable, please send us too.

Which are the sides of the conflict?
What do they stand for?
The global press says that the conflict is between the government and FRU. Are those the only sides?
What are the forces that stands for which side?
How the population behaves about it?
In your opinion what are the interests behind the conflict?


It´s not necessary to identify yourself, but please send us your age, sex and school level. We truly appreciate any information that you can send us.

Thank you.
Heloisa Sampaio – helsampaio@zipmail.com.br

The finished thesis is published in Portuguese!

I. INTRODUÇÃO

Como atividade de um trabalho interdisciplinar de Organização do Espaço Mundial e Filosofia, foi determinado o estudo de um foco de tensão no espaço mundo. À disciplina Organização do Espaço Mundial interessa localizar este foco de tensão no espaço mundial e regional, formas de ocupação e as relações sócio-econômicas, culturais e ambientais. À Filosofia interessa entender, dentro deste foco de tensão, como se dá a questão da liberdade, da ética e qual concepção antropológica embasa essa análise.

Dentre os vários focos de tensão mundiais, escolhemos Serra Leoa. A pesquisa perpassa pelos aspectos da colonização para contextualizar o conflito atual.

A opção por esta área de conflito justifica-se pelo fato da situação de Serra Leoa ser um foco de tensão obscuro e parcialmente divulgado.Como estudantes de História cabe-nos procurar entender e investigar a dimensão real do nosso objeto de pesquisa, não nos debruçando apenas no que é óbvio, ou ainda, no que é interessante ser divulgado.

Estabelecemos como objetivo entender o conflito existente em Serra Leoa, considerando os aspectos a seguir:

identificar quais são as forças envolvidas neste conflito, o que cada uma defende e quais são os interesses presentes;

Verificar a divulgação na imprensa mundial a respeito do conflito. Procurar entender como a população se manifesta frente a este conflito, buscando verificar se há identidade do povo enquanto nação;

Abordar as concepções antropológicas presentes no intuito de entender as ideologias em conflito;

Averiguar como a questão da ética está presente neste conflito;

Procurar identificar alternativas que possam dar fim ao conflito de Serra Leoa. Para nos aproximarmos destes objetivos, utilizamos como metodologia a pesquisa de material histórico para visualizar a realidade africana e assim contextualizar Serra Leoa;

pesquisa de fontes jornalísticas específicas do conflito: jornais, áudio-visual e internet; contacto, através da internet, cidadãos e organizações leoneses ou não que estejam envolvidos ou a par dos acontecimentos naquela região.

Necessário faz-se esclarecer a dificuldade encontrada para se localizar fontes de consulta, tanto no que se refere à colonização inglesa na África, que não possui literatura tão vasta quanto a colonização portuguesa e francesa, quanto especificamente sobre o conflito em Serra Leoa.

De uma forma geral, não existe nenhum documento consolidado a respeito do conflito, suas origens e objetivos. Praticamente o material pesquisado refere-se a noticiários publicados em diversos jornais do mundo, noticiários estes com forte conotação pró-governo e contrários a Frente Revolucionária Unida - os dois lados do conflito. Nada se referem ao real objeto do conflito, dando praticamente ênfase específica às barbaridades cometidas pela FRU, particularmente quando há envolvimento das forças da ONU ali instaladas.

Nosso trabalho foi dividido em 4 partes a saber:

1. Histórico da colonização na África; 2. Histórico de Serra Leoa;

3. O conflito propriamente dito;

4. Análise dos aspectos filosóficos abordados como tema: liberdade e ética.

II. DESENVOLVIMENTO

1. A colonização da África

1.1. Aspectos Gerais da Expansão Colonial A partir do momento em que a Inglaterra - para enfrentar a estagnação econômica, a crise social e a concorrência de novas potências - reforçou os laços imperiais e iniciou a corrida colonial, outros Estados seguiram-na rapidamente. A anexação de vastas áreas do mundo ao sistema econômico e político das nações mais industrializadas se fez então em ritmo acelerado. "Observa-se que desde a Antigüidade alguns estados, alcançando um certo nível de riqueza e poder, procuravam estender o seu domínio sobre outros povos, submetendo-os" (ANDRADE, 1991 p.11)

1.2. A natureza da expansão.

A reorganização geral da economia e sociedade nas nações capitalistas mais industrializadas gerou novas exigências econômicas e novas políticas estatais que conduziram à competição internacional e à conquista imperialista. Diferentemente da época anterior da livre concorrência - cuja ênfase estava no intercâmbio de matérias primas e alimentos por produtos industrializados, o que importava agora era principalmente exportar para as áreas visadas dos capitais disponíveis. Estes capitais chegavam àquelas áreas secundariamente sob a forma de investimentos: em obras públicas (ferrovias, energia elétrica, serviços de gás, transportes urbanos, etc.) e atividades primárias (extrativas ou agrícolas). Todos os setores atingidos ligavam-se direta ou indiretamente ao setor exportador da área sob a influência e domínio. Além dos lucros realizados diretamente na produção ou nos serviços, esses investimentos estimulavam o comércio e a própria indústria do país que aplicava os capitais.

A rivalidade no plano internacional arrastou, por vários motivos, os Estados à competição. Desta competição se seguiu uma repartição das áreas "ocupáveis" do mundo, o que se fez de acordo com o poderio de cada Estado empenhado na corrida.

Além dos motivos gerais já definidos, a corrida colonial surgiu de motivações mais imediatas (ligadas àqueles motivos gerais): A necessidade de assegurar vias de comunicação (portos, ilhas, pontos de abastecimento etc.) para áreas onde já existiam posições econômicas definidas; ou a necessidade de criar uma área de segurança em torno do território nacional (anexação por motivos estratégicos ou colônias estratégicas);

A necessidade de proteger uma área do avanço de rivais, impedindo-os de utilizarem-na em seu proveito (anexação protetora); A necessidade de anexar áreas, mesmo que fossem de pequeno valor, mas que poderiam tornar-se importante em seu proveito (anexação antecipatória) "Eu me levanto para o brinde desta noite e eu bebo ao comércio e ao Império!

É um brinde, Senhores, que contém todo um mundo que apela tanto a nossa imaginação como aos nossos interesses materiais, e, todavia, ele está contido em uma só palavra, porque os dois termos são sinônimos e o Império, para retomar uma palavra célebre, é o Comércio.

(Joseph Chambelain, discursos em Birmingham, 10 de junho de 1896. Apud Jean Defrasne & Michel Laran, Histoire - Lê monde de 1848 à 1914, p. 271.)

1.3. As justificativas apresentadas para a expansão

A justificativa mais geral produzida pelo impulso era a que se apresentava como uma missão civilizadora dos povos mais "adiantados" em relação aos "atrasados"; nesse sentido a colonização seria um ideal altruísta, freqüentemente apoiado em valores morais e religiosos ocidentais.

"As raças superiores têm um direito perante as raças inferiores. Há para elas um direito porque há um dever para elas. As raças superiores têm o dever de civilizar as inferiores (...) Vós podeis negar, qualquer um pode negar que há mais justiça, mais ordem material e moral, mais eqüidade, mais virtudes sociais na África do Norte desde que a França a conquistou? (28 de julho de 1885)

(Apud M. dubois & A. Terrier, As colônias francesas, 1902. Challamel.) A missão civilizadora podia abranger outras justificativas, tais como: a moralização dos costumes, a evangelização dos selvagens, uma repartição mais justa das riquezas minerais desigualmente distribuídas no mundo, o ensino da prática de governo dos povos atrasados, etc... Em conseqüência dessa fé no self-goverment ele (o povo inglês) considerou o sistema colonial como uma etapa necessária mas transitória, por sua própria natureza, para conduzir os povos não educados à maturidade política.

Paralelamente a justificativa da superioridade racial. Se os Estados europeus subjugavam outros povos, o domínio se devia a alguma qualidade própria do dominador que o diferenciava do dominado. O racismo começou a aparecer, portanto, velada ou abertamente na justificativa da colonização.

O racismo dessa época apresentava-se sob forma genérica de superioridade do homem branco sob formas específica de superioridade do anglo-saxão ou do germânico, tendia a ligar-se a concepções antiliberalistas, anti-socialistas e antiinternacionalistas.

"Sim, eu creio nesta raça, a maior das raças governantes que o mundo jamais conheceu, orgulhosa, tenaz, confiante em si, resoluta, que nenhum clima, nenhuma mudança pode degenerar e que, infalivelmente, será a força predominante da história futura e da civilização.

Eu creio no futuro deste império, grande como o mundo, do qual um inglês não pode falar sem um arrepio de entusiasmo."

(Londres, 11 de novembro de 1895) (Jean Defrasne et alii, op. Cit. P. 271)

1.4 - Instrumentos coloniais

A penetração colonial se fez de diferentes maneiras. Em certos casos, o reconhecimento da região era feito através de expedições científicas, religiosas e paramilitares, ao que se seguia o estabelecimento de companhias concessionárias e depois (ou simultaneamente) o estabelecimento da soberania político-administrativa de Estado colonizador. Em outros casos, a expedição militar abria caminho para o estabelecimento da exploração econômica ou ia juntamente com ela. As expedições não militares tiveram uma função importante: proporcionavam o conhecimento minucioso, da geografia, organização social e cultura dos povos nativos.

Muitas vezes foi apresentada como penetração pacífica a conquista através da força militar, e os povos atingidos resistiram tenazmente à ocupação. As técnicas das campanhas militares na África incluíram: estímulo às rivalidades entre nações ou entre líderes de determinado povo; requisições forçadas de alimento, gado e carregadores; alistamento de africanos nas forças européias sob promessas de pilhagens; repressão a rebeliões inexistentes, para a obtenção de promoções; saque e destruição de aldeias, seguidas de escravização da população, etc.

Aventureiros, traficantes, homens ambiciosos compõem as forças de conquista militar. Mas a violência não é explicada apenas pela presença destes tipos sociais na conquista: a violência é o instrumento necessário do colonizador para vencer a resistência dos locais.

Os ingleses possuíram na África as regiões mais populosas e produtivas, numa enorme extensão do Cabo ao Cairo. Ocupados estrategicamente para garantir a rota marítima para a Índia, sua principal possessão, estes protetorados foram administrados de modo bem diferente das colônias francesas e portuguesas. O mais das vezes, o poder foi exercido indiretamente por intermédio das autoridades tradicionais, método desenvolvido, por Frederick Luggard no Buganda. tornou-se compulsória uma intromissão mais direta. Não havendo interesse em assimilação política, não encontramos jamais representantes negros no parlamento de Londres, ao contrário de Paris. Algumas cidades da África ocidental (Acra, Freetown, Sekendi, Lagos, Calabar) possuíam, no entanto, o estatuto de "Colônia da Coroa, e a partir de 1922 sua abastada burguesia comercial conquistou o direito de eleger representantes nos conselhos legislativos.

1.5 Descolonização e o neo-imperialismo.

Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), com o enfraquecimento das metrópoles européias, a ascensão do nacionalismo afro-asiático e a Guerra Fria, acelerou-se o processo de descolonização. Os novos Estados, marcados pela herança do subdesenvolvimento, da dependência e do neocolonialismo, vão integrar o bloco dos países do Terceiro Mundo sob a influência dos EUA e da URSS. As superpotências (EUA e URSS) contribuíram para a liquidação dos impérios coloniais, uma vez que ambas, ainda que por razões diferentes, apoiaram o processo de descolonização.

Os EUA viam na descolonização uma forma de consolidar sua supremacia sobre o bloco capitalista, expandindo sua influência econômica aos mercados afro-asiáticos, até então sob controle das antigas metrópoles coloniais. A URSS via na descolonização um meio de estender sua influência política a esses países.

1.6. A descolonização da África

A colonização deixara marcas profundas no território e na civilização africana. A estrutura da sociedade primitiva, tribal, foi destruída sem que as populações assimilassem completamente o modo de vida da civilização ocidental. Além disso, as fronteiras criadas pelas potências colonizadoras não levaram em consideração as divergências tribais, reunindo dentro de um mesmo território tribos irreconciliáveis. "As fronteiras entre os Estados, por exemplo, não foram delimitadas de acordo com a distribuição dos povos e sim respeitando as demarcações feitas pelo poder imperial. Daí observa-se nos mapas políticos da África, a existência de fronteiras traças em linha reta, cortando acidentes naturais e dividindo um mesmo povo em dois Estados diferentes." (id., ibdt., p.60) A tremenda exploração econômica do território também nada fez no sentido de promover a integração racial; pelo contrário, a segregação racial agravou-se. De um modo geral, ao sul do Saara a luta foi conduzida de forma pacífica através de boicotes, petições, greves, sendo excepcional a luta armada, restringida pelos interesses governamentais e das classes dominantes dos países colonizadores.

2. Serra Leoa

2.1. Aspectos geo-econômicos País banhado pelo Atlântico, localizado em um "cotovelo" da África

Ocidental, a oeste do continente. Sua forma é praticamente circular, com 215 milhas de norte a sul e de leste a oeste e 185 milhas do nordeste a sudoeste e de noroeste a sudeste. Possui 212 milhas de costa e 397 milhas de divisa com o vizinho Guiné e 157 milhas de divisa com a Libéria a leste. Sua área é de 27.925 milhas quadradas. Como perspectiva, é duas vezes e meia o tamanho da Bélgica e é um pouco menor que a Escócia. Sua população é de cerca de 4,5 milhões de habitantes. A capital é Freetown, que se traduz por "cidade livre".

Serra Leoa possui montanhas nas regiões norte e leste, onde está Koldu-Sefadu, a maior área de extração de diamante, principal atividade econômica do país. O turismo - cujo atrativo são as reservas de animais selvagens - sofre os efeitos da guerra. Cerca de 5% da população divide-se em duas etnias: os temnes, seguidores do islamismo, e os Mendes, em geral animistas.

O seu nome poético veio de um capitão do mar português, Pedro de Sintra, que navegou na direção sudoeste da África e viu a longa cadeia de montanhas, as quais são hoje a Península de Freetown, a qual chamou de Serra Lyoa. O significado exato não se sabe, mas seu fundamento é "montanhas parecidas com leão" - independente se ele pensou que leões viviam ali, ou se o som dos trovões lhe deu a idéia do rugido. Mas o nome ficou.

A agricultura local se dedica ao arroz, sobretudo nos pântanos litorâneos; o produto não é exportado, pois se reduz ao consumo interno. Embora os solos não suportem a cultura intensiva, planta-se também, para a subsistência dos habitantes, a batata e a mandioca. A noz de kola, o café, o cacau e, muito especialmente, o óleo de palma se constituem nos principais produtos exportáveis. Na zona planaltina algumas tribos nativas se dedicam à pecuária. Serra Leoa tem grande quantidade de recursos minerais e pesqueiros. Entretanto a economia e a infra-estrutura social não são bem desenvolvidas e sérias desordens sociais continuam a dificultar o desenvolvimento econômico.

Por volta de dois terços da população em idade de trabalho se emprega na agricultura de subsistência. As manufaturas consistem principalmente do processamento de matéria prima e de uma leve manufatura para o mercado nacional.

As minas de bauxita e retílio tem sido fechadas por conflitos civis. A maior fonte de divisas é a mineração de diamantes, dos quais a grande maioria é contrabandeada para fora do país.

Com exploração só iniciada a partir de 1930, os diamantes, recolhidos facilmente no leito dos rios, provocaram a invasão do país por parte de vários contrabandistas; em 1943 foi encontrado em Serra Leoa um diamante de 530 quilates e outro de 770 quilates em 1945. Em 1971 os minerais liderados pelos diamantes contribuíram com 79% das exportações do país.

2.2. História

No século XVIII o movimento abolicionista originou tentativas de obter em solo africano um "lar" para os escravos libertados.

Assim, em 1787, a Companhia Britânica de Serra Leoa comprou dos Temné (tribo) um trecho no litoral da costa ocidental, logo ali instalando 411 negros, seguidos 5 anos depois de mais 1190. Nem a fundação do porto de Freetown, em 1791, nem a administração do governador Zachary Macaulay (que introduziu e incentivou o cultivo do algodão e do café) impediu a decadência e posterior falência da companhia. Em 1808, então com pouco mais de 2000 colonos, Serra Leoa passou a ser administrada diretamente pela Coroa Britânica. A fiscalização do governo de Londres na proibição do tráfico negreiro por outras nações, conduzia para Freetown as cargas libertadas. Assim, por volta de 1850, a colônia tinha aumentado sua população para 70.000 habitantes, que só então ensaiaram uma penetração mais efetiva do interior.

Na Colônia de Serra Leoa, a população "creole" (descendentes de ex-escravos libertos) transformou-se em auxiliar da administração inglesa. Destribalizados e educados em missões religiosas, os "creole" pouco a pouco lideram uma lenta penetração do interior. Mendé e Temné, os principais povos autóctones (que nascem na região), ofereceram resistência sangrenta, mas, em 1896, foi declarado protetorado sobre suas terras.

Serra Leoa era dividida em colônia (Capital Freetown) e cercanias habitadas por "creole" descendentes de ex-escravos) e protetorado (99% do território e povoado por Mendé e Temné). Era impressionante a disparidade entre as duas regiões no tocante à escolaridade, a Colônia perfazendo mais da metade dos alunos inscritos. Entretanto, desde a década de 20, os "creole" foram ultrapassados em número na própria capital, e quinze anos depois perfaziam apenas um quarto da população da Colônia, embora apenas eles pudessem eleger os três representantes africanos no conselho legislativo de 21 membros. Os britânicos estimularam o congresso nacional da África Ocidental Britânica, fundado na Costa do Ouro por Cosely Howard com a pretensão de representar a burguesia urbana de todos os cidadãos da região com direito a voto. Já a liga jovem, fundada em 1938 por Wallace Johnson, um dos poucos africanos de então a declarar-se marxista, pregava no jornal "African Standard" a união de todos no pan-africanismo e na luta contra a exploração econômica advinda da concessão da mineração de diamantes ã companhias inglesas no interior. Depois da guerra, as reformas efetuadas entre 1951-1957, uniram os protestos Creole, então apenas 10% da população total. Foi vencedor nas urnas o Partido do Povo, liderado pelo velho doutor e tradicionalista "Mendé" Milton Margai (1895-1964) e pelo sindicalista "Temné" Siaká Stevens. Desde 1959, a independência foi sendo gradativamente preparada, e finalmente concebida em abril de 1961.

2.3. Serra Leoa República

A luta política posterior à independência, em 1960, dividiu-se entre o conservador "Partido do Povo" do velho presidente Milton Margai (morto em 1964), baseado na etnia "mendé" e o dissidente nacionalista "Partido de Todo Povo", do sindicalista Temné Siaká Stevens, que, em 1965, passou a ser apoiado também pela elite "creole".

Nas eleições de 1967, a oposição foi vencedora, mas impedida pelo exército de assumir o governo, e Stevens exilou-se em Conacri. Um contragolpe no ano seguinte possibilitou sua volta ao poder. Desde então, a administração da Stevens destacou-se por reanimar a economia com mão de ferro e combater o contrabando crônico que assola a nação. O abandono da agricultura e a obscessão pelas exportações provocaram protestos e revoltas com a subsequente repressão e até mesmo execução dos opositores. Ainda assim, o presidente conseguiu fazer o sucessor, general Momoh, em 1990, manipulando a constituição.

Dois anos depois há um golpe de Estado liderado pelo capitão Valentine Strasser. Em 1995, a guerrilha da Frente Revolucionária Unida (FRU) seqüestra seis freiras estrangeiras, entre elas a brasileira Hildegard Jacoby, libertada no mês seguinte. O capitão Strasser é deposto em janeiro de 1996, pelo Deputado Julius Maada Bio que promete eleições. Eleições realizadas em 1996, dão vitória ao Partido do povo de Serra Leoa (SLPP), que dominara a vida política entre 1961 e 1967. Seu líder, Ahmed Tejan Kabbah, torna-se presidente. O primeiro governo civil em quase duas décadas inicia diálogo com a guerrilha e dá alento à normalização da economia e das instituições. Em maio de 1997, um golpe militar, liderado pelo major Jonny Paul Koroma, aliado da FRU - depõe Kabbah, proíbe partidos políticos e suspende a Constituição. Em protesto, os Estados Unidos fecham a embaixada no país. Freetown é bombardeada por barcos nigerianos, com a ajuda de tropas da Guiné, na tentativa de reconduzir ao poder o presidente deposto.

O major golpista é destituído em fevereiro de 1998, Kabbah retorna a Serra Leoa, reassume o governo e decreta estado de emergência, o que lhe permite prender cerca de 2 mil pessoas acusadas de colaborar com o regime militar. O líder da FRU, Foday Sankoh é condenado à morte. Os guerrilheiros da FRU reagem e lançam uma campanha de terror contra a população civil, promovendo amputações em massa.

A continuidade do conflito obriga o presidente Kabbah a iniciar negociações com Sankoh, libertado em 1999. Em julho, governo e rebeldes assinam acordo de paz em Lomé (Togo) que prevê a formação de um governo de união nacional integrado pelos dois grupos. A ONU anuncia, em outubro, o envio de 6 mil soldados de uma força internacional (Unamsil) para garantir a pacificação. Em novembro toma posse um novo ministério, que abriga quatro ex-rebeldes. Sakoh fica encarregado de supervisionar a mineração no país, num cargo com status de vice-presidente. Em dezembro, o FMI anuncia um pacote de ajuda.

O acordo de paz entra em colapso em maio de 2000. A FRU retoma os combates e seqüestra 500 integrantes da força de paz da ONU que monitoravam as áreas produtoras de diamantes em seu poder. Em Freetown, 10 mil manifestantes cercam a casa de Sankoh, pedindo a libertação dos reféns. Guarda-costas do líder da FRU abrem fogo contra a multidão, matando cerca de 20 pessoas. A ONU decide ampliar para 13 mil o número de soldados em Serra Leoa, tornando a Unamsil sua maior força de paz em atividade no mundo.

3. O Conflito

Para celebrar a chegada do Terceiro milênio, a multinacional de origem Sul-africana De Burs, que controla boa parte do comércio de diamantes no mundo, escolheu um belíssimo e imenso exemplar de 503 quilates, extraído no Congo (ex-Zaire ). Exibida ao mundo pela francesa Sophie marceau, a pedra, batizada de "estrela do milênio", é o chamariz de uma campanha publicitária que sugere que "os diamantes são o melhor presente para marcar a passagem do tempo" afinal, são "para sempre", como diz o slogan. Para sempre também parecem ser as guerras da África. A diferença é que elas não apontam para um futuro, mas sugerem um retrocesso ao século XIX, quando as potências coloniais européias se digladiavam em busca dos tesouros ocultos nas entranhas do continente. Um território tão rico em minerais acaba sendo uma espécie de maldição para a África. Companhias mineradoras, ou seus intermediários, turbinam as guerras crônicas com armas e mercenários, apoiando governos ou grupos guerrilheiros, para conseguir em troca acesso fácil aos garimpos de diamantes.

Serra Leoa é atualmente protagonista de uma triste situação: é uma das nações mais pobres do mundo. Possui o menor índice de desenvolvimento humano (IDH) - 0,252 - e taxa recorde de mortalidade infantil: a cada mil crianças, 170 morrem antes de completar um ano. No início da década de 90, o país mergulha na guerra civil entre o governo e a Frente Revolucionária Unida (FRU), que obtém nas minas de diamante sob seu controle os recursos necessários para a campanha guerrilheira. Um estudo da Unicef revela que Serra Leoa detém a maior porcentagem de crianças lutando em guerra - 10% dos milicianos da FRU são menores de idade. Arrasada por uma guerra civil que já dura quase dez anos, mais da metade da população vive abaixo da linha de pobreza. Em cada dez adultos, sete são analfabetos, e a expectativa de vida é de cerca de 35 anos.

Os conflitos na região iniciaram-se em 1991 quando Foday Sankoh, líder da Frente revolucionária Unida (FRU) toma a decisão de pegar em armas marcando o início de uma década de guerra civil. A FRU iniciou este conflito como conseqüência da então Guerra Civil na Libéria, em março de 1991, afirmando ser contra a corrupção dos políticos dirigentes. O governo, por seu lado, afirma defender a população contra o banditismo armado da FRU.

Neste conflito já morreram 20.000 pessoas, 100.000 foram deliberadamente mutiladas em seus braços e genitálias ou, ainda, cegadas, e metade da população forçada a sair de suas casas.

3.1. Cronologia do conflito

Em 23 de março de 1991 a FRU , apoiada pelo governo da Libéria liderado por Charles Taylor, toma a decisão de pegar em armas marcando o início da guerra civil, contra o governo do presidente Joseph Saidu Momoh que havia ascendido à presidência após o presidente anterior Siaka Setevens ter manipulado a constituição para nomear e colocar em seu lugar o presidente Momoh.

Em 29 de abril de 1992, o capitão do exército Valentine Strasser tirou do poder o presidente Momoh em um golpe militar causado pela frustração da guerra.

Em 1995, a guerrilha da Frente Revolucionária Unida (FRU) seqüestra seis freiras estrangeiras em missão humanitária naquele país, entre elas a brasileira Hildegard Jacoby, libertada no mês seguinte.

Em janeiro de 1996 foi a vez de Strasser ser deposto por seu adjunto Julius Maada bio que prometeu eleições pluripartidaristas e regras civis. Ahmad Tejan Kabbah ganhou as eleições em 15 de março daquele ano e assinou um acordo de paz em novembro com os rebeldes de Foday Sankoh Em 1997, o acordo de paz se desfez. Sankoh foi colocado em prisão domiciliar pelo ditador da Nigéria Sanni Abacha (amigo do presidente Kabbah), durante uma visita àquele país. O major Paul Koroma (aliado da FRU) liderou uma revolta do exército contra o presidente Kabbah, formando uma junta militar. A ONU impediu o envio de combustível, armas e até mesmo viagens da junta militar instalada.

Em fevereiro de 1998, os nigerianos lideraram tropas e depuseram a Junta e os rebeldes, reinstalando o presidente Kabbah no poder. Foi a primeira vez na África que um estado vizinho restaurou um líder civil depois de um golpe militar. O líder revolucionário Sankoh foi extraditado da Nigéria para Freetown onde foi condenado à morte.

A partir daí, uma onda de terror foi desencadeada e mantida pelos rebeldes da FRU por todo o país, incluindo uma campanha de decepar membros, cortar os genitais e cegar vítimas civis, como forma de pressionar o governo para a libertação de Sankoh.

Em Junho/julho de 1999 fiéis da junta militar e aliados dos rebeldes quase tomaram Freetown em um ataque brutal, no qual estima-se que cerca de 8.000 civis foram mortos em duas semanas de lutas intensas. Foday Sankoh tem sua pena suspensa e é libertado da prisão.

Um batalhão de 8.700 "Capacetes Azuis", como são conhecidos os homens da ONU, foi recrutado às pressas para colocar ordem na situação. Estados Unidos, França e Inglaterra se negaram a enviar soldados. Os soldados acabaram vindo de vários países africanos vizinhos. Mal equipados e sem treinamento adequado, 500 deles tornaram-se presas fáceis no campo de batalha. Ao mesmo tempo em que reforçou o esquema de proteção militar ao governo local, a ONU tentou negociar com os guerrilheiros a libertação dos reféns. O conselho de segurança da ONU convocou reunião para discutir a crise de Serra Leoa. Um acordo de paz assinado em julho de 1999, assinado em Lome, capital do Togo, no qual os rebeldes obtiveram quatro cadeiras do gabinete numa unidade nacional do governo em troca de deixarem suas armas de lado, previa o fim de oito anos de guerra civil no país..

O líder dos rebeldes, Foday Sankoh, assume a posição de Presidente da Comissão Estratégica de Minerais, que controla as minas de diamantes. Ironicamente, o principal responsável pelo fenício da guerra deve seu cargo no governo e a própria vida a Bill Clinton. Odiado pela maioria da população de Freetown, Sankoh estava preso e condenado à morte quando os Estados Unidos propuseram seu plano. Convencido de que sem ele nenhum acordo para pôr fim à guerra daria resultado, Clinton insistiu na libertação do guerrilheiro.

Ainda em julho, a ONU pede a todos os países que interrompam a importação de diamantes brutos de Serra Leoa, até que o governo crie um sistema de identificação mostrando que estes não provêem de minas da FRU.

O secretário geral da ONU, Kofi Annan, propõe, em agosto, a criação do Tribunal Especial para os crimes de guerra em Serra Leoa, juntamente com o governo do país. O contingente de 3 mil soldados indianos que integravam as forças de paz deixa Serra Leoa em setembro. A retirada militar ocorre em meio à crise com militares nigerianos, acusados por um general indiano de fazer acordos com os rebeldes para lucrar com a venda dos diamantes.

Final de 1999 - 2000 o desarmamento continuou, mas devagar. Muitos rebeldes continuam no interior do país atacando e ameaçando civis. O governo liberiano de Charles Taylor está sob as sanções da ONU numa tentativa de forçar o governo a parar de apoiar os rebeldes.

3.2. Análise do conflito

A Organização das Nações Unidas (ONU) mantém em Serra Leoa uma força de paz - UNAMSIL composta atualmente de cerca de 15.000 homens - entre os quais não há nenhum americano - mas que não tem como impor a paz à força. Nem está no país para isso. Sua missão é apenas vigiar a implementação do plano de paz arquitetado pelo presidente Bill Clinton, cuja medida mais importante era a entrega das armas pelos rebeldes.

Apenas metade dos cerca de 35 mil membros dos vários grupos em lutas cumpriram o que havia sido combinado. Da FRU, pouco mais de 4 mil combatentes deixaram a luta, e a organização manteve 15 mil homens plenamente mobilizados e armados. A guerra tem origem num conjunto de fatores e causas anteriores à independência de Serra Leoa e até mesmo podem ser remetidas ao período de colonização: o ressentimento da população do interior, cujo nível de vida é inferior ao da classe dominante da capital; movimentos libertários em países vizinhos, que alimentavam o sonho de um país melhor; uma sucessão de governos corruptos, de golpes e contragolpes que formavam governos imprudentes na administração e gerenciamento do país, desconsiderando o povo, o qual exploram para governar; enfim, um campo fértil para o desencadeamento de um movimento que lançava a bandeira contra esta corrupção.

No entanto, essa não é uma luta entre partidos políticos ou grupos étnicos, nem uma luta com interesse de defender a população explorada. É uma luta pelo controle dos recursos minerais do país.

Boa parte de Serra Leoa, incluindo a região das minas de diamante, a principal riqueza do país, está sob domínio da guerrilha, com controle territorial suficiente para se manter ativa.

Grande parte dos diamantes de Serra Leoa são contrabandeados para a vizinha Libéria. O dirigente rebelde de Serra Leoa, Foday Sankoh, estabeleceu uma lucrativa parceria com seu amigo liberiano, Charles Taylor, que se tornou presidente. Treinados na Líbia, suas lutas revolucionárias começaram no final dos anos 80 e seus exércitos têm ajudado um ao outro.

O conflito tornou-se maior em função dos interesses que apóiam a FRU. Por causa dos diamantes, existem ávidas instituições capitalistas no ocidente e indivíduos que suprem a FRU com armas numa troca calculista por diamantes. Se a guerra de Serra Leoa ainda continua se deve basicamente à disputa pelos diamantes e não como combate à corrupção ou para defender a população das atrocidades cometidas pelos guerrilheiros. A FRU é uma força rebelde cujo objetivo é obter força política (e econômica) por meios armados.

A população hoje tende a estar com o governo e com as forças da ONU que integram as forças de paz. Esta opção provavelmente está ligada ao estado de terror com a prática de amputação de membros, de genitálias, de queimar os olhos, e destruir vilas e povoados inteiros, implantada pela FRU.

Refugiados de Serra Leoa nos países ao redor expressam seu desejo de voltar para casa - mas apenas depois de todos os combatentes estarem desarmados. Planos de contingência ainda estão sendo levados em consideração por agências internacionais para ajudar centenas de milhares de serra leoneses a retornarem a seus lares - mas movimentos de larga escala dependem do sucesso do desarmamento e do processo de reintegração.

4. Concepção antropológica

Uma terra em conflito. Rivalidade interna que vitima os próprios habitantes desse país. A sociedade sujeita ao despotismo de golpes e contragolpes políticos sucessivos, e a uma guerrilha que dissemina o terror, fator este que somente contribui para acentuar o caos em Serra Leoa.

Contudo, frente à descrição panorâmica do quadro leonês, cabe aqui esclarecer que esta situação é mais alarmante devido à falta de uma cobertura informativa do local. Em geral o jornalismo e noticiários apresentam-nos as conseqüências do conflito sofridas pela população sem, no entanto, esclarecer os objetivos e o que defendem as partes em conflito. Descreve as ajudas aparentemente humanitárias e a intervenção da ONU, sendo que essas "ajudas" em nada melhoraram a vida do povo leonês, mas sim a defesa de um território rico em diamantes em benefício das grandes potências - Inglaterra, EUA. É arriscado até mesmo citar a questão da identidade - a formação do país por diversas tribos africanas e de ex-escravos libertos da Inglaterra - pela própria obscuridade dos fatos vistos parcialmente. Sabe-se que a disputa dos diamantes junto à questão da instabilidade política está sendo combustível que ameaça cada vez mais a vida dos cidadãos leoneses.

Mas, por que esse descaso? Como se pode afirmar a respeito da eficácia dessas tradicionais ajudas humanitárias, sendo que a guerra no país ultrapassa uma década? Como se explica a imobilidade dos países desenvolvidos diante de uma situação totalmente contraditória à Declaração Universal dos Direitos Humanos?

Diante dessas e demais perguntas, as concepções antropológicas, existencialistas ou não, poderão auxiliar-nos não no sentido de se apontar uma resposta concisa, mas pelo menos iluminar a compreensão diante da conjuntura conflituosa de Serra Leoa.

Para Aristóteles e para Sartre, segundo Chauí (1995) "a liberdade é o princípio para escolher entre alternativas possíveis, realizando-se como decisão e ato voluntário". Ora, o povo leonês vive em um dos países de vida mais pobre do mundo. 64% de sua população é analfabeta, o Índice de Desenvolvimento Humano, que aborda expectativa de vida, grau de escolaridade e renda per capita é o mais baixo do mundo, a expectativa de vida é de 36 e 39 anos respectivamente para homens e mulheres. Desde sua Independência da Inglaterra, em 1961, sofreu 7 golpes de estado, 3 intervenções da ONU (sendo que foi enviada a maior tropa de intervenção da história dessa organização), vive, há cerca de 10 anos, o conflito entre o governo e a guerrilha da Frente Revolucionária Unida, que vem promovendo o terror na população local estabelecendo amputações em massa. Diante deste quadro, a construção de uma identidade, que permita a tomada de uma decisão como ato voluntário, individual, regido pelo conhecimento é bastante improvável. As condições de vida da grande maioria daquele povo tem permitido apenas a sua sobrevivência diante de tanto horror e descaso. A sua opção, se se pode chamar de opção, tem sido aquela alternativa de se manter vivo, ou seja, de ficar ao lado de um governo, que mesmo sabidamente corrupto, não aterroriza, não mutila fisicamente. Também, ao abordarmos as concepções existentes em Hegel e Marx que colocam a liberdade na atividade do todo do qual os indivíduos fazem parte, sendo este todo a cultura e formação histórico-social, esta liberdade pressupõe, no mínimo, uma identidade como povo, ou como oprimidos. Embora não tenhamos ainda bem claro as concepções que regem as partes em conflito, a própria colonização de Serra Leoa, em que africanos traficados como escravos eram para ali retornados, provindos das mais diversas regiões da África, pode-nos levar a inferir que a questão da identidade como povo não é latente. As organizações sociais daquele país, o Estado, não vem garantindo as liberdades individuais e o bem comum conforme aborda Hegel. A própria alternância do poder através de sucessivos golpes não possibilita a construção deste Estado que garanta a liberdade.

Visto também como um país que detém grande riqueza no seu subsolo (diamantes), mas que mantém a sua população em estado degradante de vida; que há o maior contingente de forças da ONU no mundo ali instaladas - cerca de 15.000 homens -, podemos perceber que o valor que predomina não é o valor humano, e sim o valor econômico, que permite que uma situação dessas permaneça praticamente no anonimato, sendo divulgadas apenas as atrocidades cometidas pela guerrilha, mesmo assim quando são atacadas as forças internacionais (caso do seqüestro de freiras estrangeiras e de componentes das forças da ONU) sem divulgar os interesses reais existentes neste conflito. Como colônia formal da Inglaterra e colônia informal após a sua "independência" a usurpação de sua riqueza natural tem sido o principal objetivo dos golpes e contragolpes, da guerrilha apoiada por alguns países que recebem o diamante bruto das minas sob domínio dos guerrilheiros e da própria intervenção das "forças de paz". No conceito marxista de infra e super estruturas, percebemos que a infra estrutura não corresponde às necessidades reais dos homens, onde o trabalho humano não é visto como processo de humanização, sujeito ativo-social, mas como um mecanismo capitalista de acúmulo de riquezas à uma classe dominante. Desta forma, a superestrutura, determinada pela infra-estrutura e compreendida como a parte visível dessa estrutura social, em Serra Leoa se configura como um espelho da infra-estrutura, ou seja, dominação dos opressores garantida pela alienação do povo leonês, impedido de vislumbrar a realidade na sua totalidade, destituído de condições mínimas de vida digna, de liberdade, de direito de escolha.

"(...) Para Camus, um dos limites do ser humano é o respeito que ele deve ter pelo semelhante e por si mesmo. (...). Aquele povo tem sido drasticamente desrespeitado, tanto em sua condição de vida, como na sua condição física, sendo-lhe tolhida a possibilidade básica do trabalho, através da amputação dos braços, das genitálias e o cegamento. Possui a maior porcentagem do mundo de crianças em luta, fazendo parte da FRU. O que será dessas crianças? Qual o respeito que terão pelo semelhante diante de tantas atrocidades cometidas? Como poderão exercitar a liberdade à partir da ética? Heidegger, ao nos apresentar o conceito de autenticidade e inautenticidade valorizando a instância individual não nos possibilita uma avaliação precisa destes conceitos na realidade leonesa. Mas, ao transportarmos o conceito ao conjunto daquele povo, este aparentemente, pelos dados que dispomos hoje, vive em estado de inautenticidade, sobrevivendo no conformismo, no alternar das forças no poder.

III - CONCLUSÃO

Tendo percorrido o caminho da colonização africana, que inclusive iluminou o nosso olhar a respeito deste processo, visualizamos o quanto o colonizador, que trazia o slogan de "missão civilizadora"oprimiu e colocou sob seu jugo aquele povo. A África, durante séculos, foi explorada por potências européias que dividiram o continente em zonas de influência adequadas aos seus interesses.

A abordagem histórica da colonização foi direcionada metodologicamente para o sistema de dominação inglês com o intuito de compreender Serra Leoa peculiarmente, tendo em vista que os britânicos foram os mentores do colonialismo leonês.

A partir dessa captura histórica dos acontecimentos genéricos da África e específicos de Serra Leoa, tornou-se possível contextualizar com mais clareza a situação atual deste país.

A busca de dados e informações em revistas, jornais, audio-visuais e internet possibilitou a ampliação do que estava obscuro até então: o conflito que já perdura uma década, bem como as forças envolvidas que o sustentam.

No decorrer do século XIX as potências industrializadas européias adquiriram colônias formando vastos impérios coloniais na África. Depois da primeira Grande Guerra Mundial, surgiram movimentos de libertação nas áreas dominadas, mas as propostas anticolonialistas fracassaram. Em 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial, várias são as transformações ocorridas:

A economia européia entra em crise - as potências coloniais européias saem da Segunda Guerra Mundial profundamente abaladas.

Assiste-se, então, ao recuo das potências européias, às voltas com sérios problemas internos ao final do conflito; Os Estados Unidos e URSS passam a disputar a hegemonia internacional; Antigas colônias iniciam os movimentos de descolonização.

No entanto, foi nos anos 60 que os movimentos de descolonização africanos ganha ímpeto. Acreditamos ser de suma importância a análise dos meios utilizados para que se desse a emancipação política e, também, o significado da mesma.

Segundo o historiadora Letícia Bicalho (1985); "(...) o instrumento utilizado por todas as sociedades colonizadas para conquista da independência foi elaborado a partir do Ocidente: o partido político. Criado por elites modernistas, educadas no Ocidente, ele possibilitou a organização da população para a luta contra o agressor. Representava valores nacionais em face de um inimigo estrangeiro, que havia transtornado as sociedades locais. O nacionalismo, veiculado através de partidos políticos, representou a aspiração de um povo oprimido e humilhado. Foi uma mensagem de resistência, ma força moral contra o agressor, um colonizador. Forneceu resposta concreta a um problema real: a expulsão de um inimigo estrangeiro."(p.71)

Podemos concluir a partir da leitura do trecho acima que o nacionalismo foi capaz de ajuntar os povos em torno de uma causa comum: a independência. No entanto, ma vez atingida a emancipação política, o nacionalismo não conseguiu ocultar a desigualdade social. Isto ocorre porque as revoluções colônias não foram seguidas de revoluções sociais. Dessa forma, os líderes dos movimentos de independência (elites modernistas) criaram a fábula da unidade nacional. Dessa maneira os Estados nacionais recém-criados não permitiam mudanças importantes na sociedade, uma vez que os embates sociais não deveriam existir ou serem reprimidos, em nome da unidade nacional responsável por sua vez, pela construção do Estado.

A ininterrupta dependência econômica externa e as inexpressivas mudanças nas relações sociais vigentes no período colonial são as causas da miséria e das dificuldades que a grande parcela da população dos países africanos enfrenta.

Os novos Estados africanos fazem parte do chamado Terceiro Mundo. Sendo assim apresentam as seguintes características de subdesenvolvimento: predomínio das atividades agrícolas e extrativas; expansão demográfica; alto índice de mortalidade infantil e de analfabetismo; subemprego; miséria; fome; altos índices de infla'~ao; a dívida externa; devastação ecológica e a instabilidade política.

Para mascarar todos esses problemas a elite dirigente faz uso da identidade nacional. Algo que não existe em países formados por uma população heterogênea, com diferenças culturais, étnicas e raciais. A postura da elite dirigente é fácil de ser compreendido: muitos dos atuais Estados africanos obtiveram a sua emancipação mediante concessões feitas às potências coloniais. Atualmente, a África encontra-se descolonizada, porém envolta em revoltas, rebeliões e fome.

O território hoje denominado Serra Leoa foi ocupado pela Inglaterra no século XVII. Em 1786, os britânicos fundam a cidade de Freetown, que recebe escravos emancipados da Europa e da América. Após a proibição do tráfico de escravos, no século XIX, 70 mil africanos interceptados em navios negreiros são levados à Serra Leoa. Com os descendentes de ex-escravos, eles compõem a elite do país, independente em 1961. Em 1967, Siaka Stevens torna-se primeiro ministro, mas é derrubado por um golpe militar. Um contragolpe em 1968 o reconduz ao poder. Stevens, manipulando a constituição faz seu sucessor, o general Joseph Saidu Momoh.

Em 1992, o capitão do exército Valentine Strasser depõe o presidente Momoh. Em 1996 Strasser é deposto pelo Deputado Julius Maada Bio, que promete eleições. Almad Tejan Kaballah é eleito em 15 de março de 1996. em 1997, o major Johny Paul Kooma, aliado da Frente Revolucionária Unida (FRU) depõe o presidente Kaballah e instala uma junta militar, suspendendo a constituição. Em fevereiro de 1998, as tropas da Nigéria invadem Freetown, depõem a Junta militar e reconduzem Kaballah ao poder, que decreta estado de emergência e prende cerca de 2 mil pessoas acusadas de colaborarem com a junta militar.

O conflito entre a Frente Revolucionária Unida - FRU (apoiada pelo governo da Libéria) e o governo serra leonês teve início em 1991, quando o líder da FRU Foday Sankoh toma a decisão de pegar em armas, tendo como bandeira a luta contra a corrupção dos políticos então no poder. Essa revoltante e obscura guerra tem elementos e causas anteriores à independência de Serra Leoa, em 1961, e até mesmo podem ser remetidas ao período de colonização.

Após a independência houve uma sucessão de governos corruptos, golpes e contragolpes que formavam governos imprudentes na administração e gerenciamento do país, desconsiderando o povo, o qual exploram para governar. Enfim, um campo fértil para o desencadeamento de um movimento que lançava como bandeira a luta contra esta corrupção.

No entanto, a FRU tem como objetivo obter força política e econômica por meios armados, mas não com o interesse de defender a população explorada. Apoiados por grandes grupos que têm interesse na riqueza daquele país, os rebeldes utilizam-se de força contra essa mesma população civil, desencadeando uma onda de terror inacreditável de se pensar nos dias de hoje. Cerca de 100.000 civis, entre eles crianças e mulheres mutilados e cegados.

A guerra de Serra Leoa mantém-se hoje por causa dos diamantes, e não para combater a corrupção. Tanto a FRU quanto os governos instalados não são comprometidos com a estabilidade e manutenção do desenvolvimento do país. Esta destruição, do ponto de vista humano, não faz o menor sentido. Não é ao homem que se visa, mas sim ao comércio de minerais. É uma barbárie. Segundo o depoimento de um serra-leonês, o qual concordamos após uma análise de toda a situação, não fosse uma política corrupta e uma guerrilha insana na busca por diamantes "seríamos um país de desenvolvimento estável e constante, pois temos os diamantes, o ouro, o minério de ferro, a bauxita, entre outros minerais, além de nossas terras férteis e da pesca rica. Mas nossos políticos simplesmente se aventuraram roubando nossos recursos, acumulando riquezas e guardando pilhas e pilhas de dinheiro em bancos do ocidente, como Suíça, Inglaterra e E.U.A. Que vergonha. Então, se você me pergunta quem eu defendo - eu defendo que a justiça, a paz e prosperidade prevaleçam para todos. As duas partes que lutam nesta guerra - A FRU e o Governo - não defendem nenhuma causa genuína e sim interesses próprios. São todos "velhacos", que se permitiram matar e aterrorizar civis indefesos numa tentativa de eliminar um ao outro para seus próprios interesses egoístas."

Kenday Samuel Kamara - Serra Leonês

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMANAQUE

ABRIL. Mundo 2001. Ed. Abril. 433 p.

ANDRADE, Manuel Correia de. Imperialismo e fragmentação do espaço: revolução industrial e imperialismo, descolonização, a problemática do mundo atual. 3 ed. São Paulo: Contexto, 1991. 94 p.

CANÊDO, Letícia Bicalho. A descolonização da Ásia e da África: processo de ocupação colonial, transformações sociais nas colônias, os movimentos de libertação. 2. ed. São Paulo: Atual, 1985. 79 p.

CASTRO, Therezinha de. África: geohistória, geopolítica e relações internacionais. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, Coleção General Benicio, 1981. 208 p.

DEFRASNE, Jean & LARAN, Michel. Histoire - lê monde de 1848 a 1914.

MARTIN, André Roberto. Fronteiras e Nações. São Paulo: Contexto, 1992. 96 p.

PINTO, João Pereira. A liberdade em Graciliano Ramos. Varginha, MG: Editora Alba, 2000. 158 p.

RODRIGUES, João Carlos. Pequena história da África Negra. Editora Globo, 1990.

ANEXOS

Anexo 1: Dados gerais sobre Serra Leoa

Anexo 2: Contatos, via internet

Anexo 1 DADOS GERAIS SOBRE SERRA LEOA

República da Serra Leoa (Republic of Sierra Leone)
Capital: Freetown
Cidades principais: Freetown (384.499), Koidu-Sefadu (82.474), Bo (59.768), Kenema (52.473) (1985)
Nacionalidade: Leonesa Data Nacional: 27 de abril (Independência) População: 4,9 milhões (2000)
Densidade: 68,3 hab/km2
População urbana: 35% (1998)
Crescimento demográfico: 3% a.a. (1995-2000)
Fecundidade: 6,06 filhos por mulher (1995-2000)
Expectativa de vida M/F: 36/39 anos (1995-2000)
Mortalidade infantil: 170 (1995-2000)
Analfabetismo: 63,7% (2000) IDH (0-1): 0,252 (1998)
Composição da população: Mendes 34,6%, temnes 31,7%, limbas 8,4%, conos 5,2%, bulones 3,7%, peules 3,7%, corancos 3,5%, ialuncas 3,5% quisis 2,3%, outros 3,4%. Idioma: inglês (oficial), crioulo, mende, limba, temne Religião: islamismo 60% (sunitas), crenças tradicionais 30%, cristianismo 10%.
Governo: República presidencialista
Distribuição administrativa: 4 regiões subdivididas em 12 distritos
Chefe de Estado e de Governo: Ahmed Tejan Kabbah (SLPP) (desde 1996, deposto em 1997, retorna em 1998)
Principais partidos: do Povo de Serra Leoa (SLPP), Nacional Unido do Povo (UNPP), Democrata do Povo (PDP) Legislativo: unicameral - Parlamento com 80 membros eleitos por voto direto para mandato de 5 anos
Constituição em vigor: 1991
Economia: moeda: Leone - cotação para US$ 1:1900 (jul/2000) PIB: 647 milhões (1998)
Agropecuária: 44% Indústria: 24% Serviços: 32%
Crescimento do PIB: -4,7% a.a. (1990-1998)
Renda per capita: US$140 (1998) Força de trabalho: 2 milhões (1998)
Agricultura: café, cacau, mandioca, arroz, banana Pecuária: bovinos, ovinos, aves Pesca: 68,7 mil t (1997)
Mineração: bauxita, dióxido de titânio, diamante, ouro
Indústria: alimentícia (óleo de palma), têxtil, móveis Exportação> US$19 milhões (1998) Importações US$130 milhões (1998)
Parceiros comerciais: EUA, Reino Unido, Holanda (Países Baixos), Bélgica. Defesa: efetivo total: 5 mil (1998).
Gastos US$25 milhões (1998)
Relações Exteriores: Organizações: Banco Mundial, Comunidade Britânica, FMI, OMC, ONU, OUA.
Embaixada: Washington D.C. EUA

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